Inter-dependência: afecto, entrega, intimidade, sexo

O post de hoje vai para algo tão importante, tão esquecido, subjogado, visto como lascivo, ou visto como carência, parolice, fragilidade e mais coisas que tais. Não é fácil falar sobre afecto. Não é fácil falar sobre intimidade. Não é fácil falar sobre sexo. São tudo palavras, temas, que todos tendemos a fugir. São temas que causam desconforto, que causam discussões ou ausência mesmo de comunicação. São temas que nos colocam retrogradas. São temas que nos bloqueiam, não nos permitem avançar, não nos permitem desintoxicar de padrões, de crenças, de culpas... E em detox 21, este apenas poderia ser o final feliz! Porque sem afecto, sem entrega, sem intimidade, sem sexo o padrão de conflito está sempre marcado dando uma má informação às nossas células, cria um aumento de stress oxidativo e, aí, bye bye regeneração mitocondrial e anti-aging.
Não vivemos sem afecto. Sobrevivemos sem afecto. Sobrevivemos sem contacto. Activamos o modo luta/fuga das nossas supra-renais. Andamos sempre em activação simpática com adrenalina manifestada numa ansiedade inexplicável. Encontramo-nos em modo de sobrevivência activado. Mas não vivemos realmente. Precisamos do toque. Precisamos do contacto. Precisamos da interacção. Precisamos do vínculo. Precisamos da inter-ajuda, inter-comunicação, inter-relação para realmente viver. Precisamos de aprender e ensinar. Precisamos das experiências, das vivências. Precisamos do desconforto de nos darmos ao outro, de nos entregarmos sem controlar o que vamos receber. Precisamos da surpresa para o brilho nos olhos, para a congruência mental, para a felicidade que vem de dentro. E todo esse desconforto, todo esse não controlo, todo esse inesperado é o que acontece quando entramos no campo do afecto, da entrega, da intimidade, do sexo.
Não é só para as mulheres que este é um campo frágil. Não são só as mulheres que se enchem de culpas ou tabus no que toca a falar de intimidade, no que toca a expressar a sua sexualidade. Pode o homem apresentar uma postura máscula, forte, segura mas, no campo da intimidade, todos estamos despedidos. E estando despedidos, todas as fragilidades surgem a olho nu. Para alguns, o foco pode ser receber. Para outros, o foco pode ser dar. Para outros, o foco pode ser dar para receber. E, para outros, o foco pode ser receber para dar. Diferentes percepções, diferentes formas de comportamento perante uma interação.
Se só pensamos em receber ficamos com duas opções: ou saímos frustrados porque, convenhamos, tendemos a criar expectativas bem altas, ou, reconhecemo-nos como perfeitos egoistas. E egoísmo e frustração andam sempre de mãos dadas.
Se só pensamos em dar pela boa imagem moral que criará, deixo as seguintes questões: que vazio é esse que existe? Que culpa é essa que se carrega?
Se pensamos em manipular os factos entrando no jogo de dar para receber ou esperar receber para dar, vamos lá pensar: que tipo de crenças foram desenvolvidas? Que tipo de ideologia foi construída? Que moralismo foi instituído?
No campo do afecto, da entrega, da intimidade, do sexo, as dificuldades apontam para o acto de dar, sem fazer disso um jogo, sem esperar nada em troca. Dar sentindo-se já a receber, sentindo já satisfação só pelo acto de dar de coração aberto, de presença, de vontade genuina. E é nesse tipo de dificuldade em dar que ficamos retrogradas. Que ficamos fechados. Que nos afastamos. Que entramos em contacto mas não vinculamos na realidade. Que nos tornamos dependentes ou independentes e fugimos, fugimos sim, da inter-dependência. E é na inter-dependência que se situa: o afecto, a entrega, a intimidade, o sexo.

