Tudo tem uma história

Tudo tem uma história.
Hoje sou eu, a descobrir um hobby. Há uns anos atrás foi o meu pai. Não foi o corona virus que o mandou para casa. Não foi algo que pusesse em causa a vida/morte da comunidade mas foi algo que reduziu em larga escala o seu poder de compra. Ele era da área da moda. Da área das grandes marcas de roupa. Teve uma loja aberta durante 32 anos. Tinha uma marca, um estatuto, um conceito mais do que instalado, mais do que afirmado. Tinha clientes fiéis. Mas, clientes que perderam o seu poder de compra. E sem compras, sem movimentação de dinheiro, não há economia. Sem compras, sem movimentação de dinheiro temos quedas a pico das bolsas. E sem compras, sem movimentação de dinheiro, empresas fecham. E ele foi para casa. Durante um mês ficou em isolamento. Não queria sair, não queria ver ninguém, não queria nada. O mundo dele tinha parado. Durante um mês processou o que tinha sido a sua vida já que trabalhava desde os 11 anos. Durante um mês achou que não sabia fazer mais nada. Estávamos em julho. E ele tinha um terreno que raramente lhe tocava. Tinha para lá umas árvores que eram tratadas por pessoas que de vez enquando ele contratava. Passou um mês. Até que ele começou a aceitar a sua nova realidade. E encontrou um hobby. Encontrou o seu hobby. Ligou-se à terra, não seria ele descendente de pai transmontano que trabalhou toda a sua vida no campo. E começou a cuidar de árvores e flores. Começou a plantar ervas aromáticas. Começou a semear legumes e tubérculos conforme as estações do ano. E começou a sorrir com framboesas. Começou a sorrir com ninhos de melros. Começou a sorrir com aquela pele morena que de repente o sol embelezou. O mundo dele parou. Ele parou, sim. E, depois, mudou.
Se ainda gosta de roupa? Muito. Se ainda gosta de falar sobre negócios? Muito. Mas encontrou uma nova forma de estar e que lhe dá, sem dúvida, saúde e alegria.
Eu também quero encontrar. E por aí?
Tudo tem uma história.




